“Aprendi que buscando ajuda para mim, pude ajudar outras pessoas. E assim surgiram novas e sólidas amizades”, afirma o Sr Ivo Mer, vencedor da edição 2009 do programa GreatComebacks.



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Como cantou o poeta Cazuza: “ ... o tempo passa e nem tudo fica, a obra inteira de uma vida...”, mas o que fica? Para alguns a resposta está no dinheiro acumulado durante a vida, para outros o patrimônio conquistado, mas, para uma pessoa em especial, um gaúcho de 68 anos, o que ficam são as lições de superação de uma existência repleta de altos e baixos.
O senhor Ivo Mer tem uma historia de vida daquelas que realmente emocionam, mas não só pelas dificuldades de saúde e pelas tragédias familiares, mas sim pela força de vontade em superar todas as barreiras e desafios impostos a ele devido a uma neoplasia de reto em decorrência a polipose familiar.
Do diagnóstico ao tratamento
Em outubro de 1984, após longo período de automedicação em decorrência de diarréias eventuais, Sr Ivo procura ajuda médica: “ A minha negligência com a saúde talvez tenha contribuído para o avanço da doença”, alerta como que num aviso aqueles que abusam da automedicação. Em novembro de 1984 foi operado, amputação abdomino-perineal de reto, e ficou colostomizado. Em razão de aderências, do surgimento de tumores desmóides e de outras coisas, fez mais 10 cirurgias, até que em 1992, após ter vários seguimentos de seus intestinos amputados, sofre sua última cirurgia, uma enterectomia de íleo com transposição de ileostomia.
A condição genética
Em 1971, esse economista já aposentado, perdeu a mãe, sete anos mais tarde, em 1978, o primeiro irmão e em 1986, um segundo irmão, todos em decorrência do câncer de intestino: “ Eu temia pela própria vida e pelas vidas de minhas filhas e de meus netos, desde o momento em que soube que eles poderiam ter herdado a polipose familiar, passei a depender de medicamento para dormir”.
Quis o destino que três das sete filhas só fossem examinadas quando sentiram os sintomas da doença. Foram operadas e vieram a falecer, respectivamente em 1990, 1997 e 2001, cada uma deixou três filhos. Das outras quatro filhas, uma nada apresentou, uma recusou ser examinada, outra ficou ileostomizada, e a última fez colectomia total. “ De meus onze netos, perdi dois (irmãos), um com câncer de intestino (2006) e o outro assassinado (2007). Dois outros foram submetidos à colectomia total, cinco vem sendo examinados periodicamente, e três, com menos de 11 anos, ainda não foram examinados”.
Por muitos anos, até submeter-se a tratamento psicológico, carregou o fardo da culpa: “ Já minha esposa, que recusou o tratamento, ficou refém da dor. Minhas filhas e netos, por razões óbvias, carregam o medo que lhes reserva o futuro”, afirma.
Seu Ivo fez da busca constante pela vida, um alento para sua dor: “Quanto a mim, posso dizer, a vontade de viver fez adaptar-me, quase que totalmente, à nova realidade. Aprendi que é possível superar a dor e as dificuldades com a união familiar e a ajuda de amigos e de profissionais. Foi pensando e agindo assim que completei 25 anos como estomizado” .
O grande retorno
Para vencer esse momento difícil, Ivo buscou ajuda com outras pessoas na mesma condição com quem pudesse trocar experiências: “Foi muito proveitosa essa decisão. Aprendi que buscando a ajuda para mim, pude ajudar outras pessoas. E assim surgiram novas e sólidas amizades”. Foi participando de vários e distintos grupos, que o Sr. Ivo encontra o caminho para a reabilitação: “ me senti útil, renovei energias e renasci para a vida social e familiar. Voltei à minha atividade profissional, dela só me afastando enquanto convalescia de sucessivas cirurgias e continuei participando dos ditos grupos, como o faço até hoje”.
O Sr. Ivo é membro fundador da Associação Gaúcha de Ostomizados (AGO), recentemente transformada em Federação Gaúcha de Estomizados (FEGEST): “No início de 1985 conheci a Enfª Zélia M. Gamba e os estomizados Brutu R. Germiniani, Ir. Birguita M. Breitembach, Iolanda da S. Bachieri e Rubens P. d’Ávila. Começamos a nos reunir semanalmente para troca de experiência e autoajuda. Numa dessas reuniões, decidimos fundar uma entidade que defendesse nossos direitos. Formatamos e registramos seus estatutos em 13/03/1986. Fui eleito seu primeiro presidente e, no decurso do tempo, exerci todos os cargos previstos em seu estatuto”. Com seus companheiros, a AGO, agora formalizada, começa a batalha pela conquista de diversos direitos que refletem na saciedade gaúcha até hoje: “ Participamos da elaboração da minuta da Lei Municipal de Porto Alegre que permitia ao estomizado, mediante o pagamento da tarifa , entrar e sair do ônibus sem passar apela roleta”. E a associacao foi além, em 1986 o Ministério da Fazenda aumentou significativamente a aliquota do imposto de importação sobre produtos para ostomia: “de próprio punho, enviei carta ao Exmº presidente da República, José Sarnei, expondo-lhe, a situação”, passados pouco dias, em sua residência, recebe telegrama informando que, por ordem do Presidente Sarnei, a alíquota estava retornando ao percentual anterior à majoração.
O Exemplo da AGO foi seguido, e hoje, em diversos cantos do Sul do Brasil, existem associações que lutam pelos direitos dos pacientes ostomizados e apoio da ABRASO – Associação Brasileira dos Ostomizados. |